Por que mulheres são menos valorizadas na ciência?

Por que mulheres são menos valorizadas na ciência?

No livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, Yuval Harari questiona por que as sociedades humanas são majoritariamente patriarcais, pelo menos desde a invenção da agricultura. Há várias teorias, mas nenhuma explica convincentemente por que nossas culturas valorizam mais os homens do que as mulheres.

Em ciência, esse fenômeno tem nome: “efeito Matilda”, em homenagem à ativista norte-americana Matilda Gage (1826-1898), defensora do sufrágio universal e da abolição da escravatura. No ensaio “Woman as an inventor” (A mulher enquanto inventora), publicado em 1883, ela elenca contribuições femininas à ciência e à tecnologia e mostra como, ao longo da história, muitas delas foram atribuídas a homens.

Muitas vezes isso está associado ao “efeito Mateus”, ou seja, cientistas renomados que recebem crédito excessivo em detrimento de seus colegas mais jovens, de qualquer gênero. O nome faz referência ao Evangelho de Mateus (“àquele que tem, mais será dado e ele terá abundância, mas, daquele que não tem, mesmo o que possui será tirado”).

O mais antigo caso registrado diz respeito a Trota, que viveu na cidade italiana de Salerno na primeira metade do século 12 e se notabilizou na área de medicina da mulher.

Seus tratamentos foram coletados em um texto em latim intitulado “Trotula”, que alcançou fama em toda a Europa. Mas a ideia de que fosse obra de uma mulher era demasiado estranha para os monges copistas que reproduziram o texto na Idade Média. Após sua morte, a autoria foi atribuída a seu marido ou filho. Com o tempo, os confusos monges chegaram a “converter” Trota num homem chamado Trotula. A verdade só veio à tona no século 20.

No tempo de Matilda, a injustiça estava sacramentada na lei: “Se uma mulher casada conseguir uma patente, ela poderá usar como entender? De modo algum. Ela não terá qualquer direito sobre o fruto de sua mente. Seu marido pode dar seu próprio nome à invenção e fazer com ela o que quiser”.

As leis mudaram, na maior parte dos países, mas pressupostos culturais são muito resistentes. Tomei consciência disso, de modo contundente, durante reunião de preparação do projeto “Meninas Olímpicas do Impa”, iniciativa apoiada pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) que visa agir na educação básica para incentivar a permanência de meninas nas áreas de ciências exatas e tecnologia.

 

Leia o texto na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo

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