Paolo Piccione: Matemática no sangue e na tradição

Paolo Piccione: Matemática no sangue e na tradição

Ao desembarcar no Brasil, em 1996, o italiano Paolo Piccione protagonizou uma espécie de déjà vu que remonta aos primórdios da história da Matemática nacional: assim como o conterrâneo Luigi Fantappiè (1901-1956), contratado em 1934 para lecionar no primeiro curso de graduação de Matemática do país, na recém-criada Universidade de São Paulo (USP), ele chegou à cidade para ser professor da área na mesma instituição.

Fantappiè veio às cegas. Como integrante da chamada Missão Italiana – formada por especialistas como Gleb Wataghin (1899-1986) e Giàcomo Albanese (1890-1948) -, chegou ao país para formar os primeiros quadros de docentes e pesquisadores, que mais adiante ocupariam as cátedras da USP. Já Piccione encontrou um caminho bem pavimentado pelos pioneiros na área. Ele estivera no Brasil em outras ocasiões antes de passar pelo processo seletivo que o fez instalar-se de forma definitiva no país, aos 32 anos de idade.

“Em comparação com a posição que na época ocupava na Itália, minha impressão, confirmada nos fatos, foi de que a USP poderia me oferecer um ambiente mais dinâmico e estimulante. Até hoje eu a considero a minha segunda casa, um lugar bonito, talvez o lugar mais bonito de São Paulo, que proporciona excelentes condições de trabalho, em um ambiente intelectualmente desafiador”, elogia Piccione, professor do Instituto de Matemática e Estatística (IME).

Mas não só a USP o fez sentir vontade de ficar de vez no Brasil. “Além disso, achei incrivelmente acolhedor o ambiente da Matemática, em particular do grupo de Geometria, sempre genuinamente aberto a estudantes e pesquisadores do mundo inteiro. Minhas primeiras idas ao IMPA, um centro de pesquisa em Matemática entre os mais importantes que já visitei na vida, me deixaram entusiasmado sobre a possibilidade de realmente me radicar dentro desta maravilhosa comunidade científica, que abriu suas portas para mim.”

Naqueles primeiros contatos com o IMPA, Piccione nem imaginava que, muitos anos depois, em agosto do ano passado, vivenciaria lá um momento importante não só para a sua trajetória profissional como para a comunidade científica nacional: a posse na presidência da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), instituição criada em 1969 com o objetivo de reunir matemáticos e professores de Matemática, estimular a divulgação científica na área e promover o intercâmbio entre profissionais do Brasil e do exterior.

Parceria com o IMPA

Desde então, Piccione tem como desafio conjugar o trabalho como professor à função de presidente da instituição. Embora tenha sido conselheiro e vice-diretor da SBM durante a última gestão do antecessor Hilário Alencar, ele observa que eram funções com responsabilidades mais limitadas. Para administrar com propriedade, até 2019, uma sociedade formada por cerca de 2 mil associados, Piccione destaca a excelência da equipe técnica da SBM, formada ao longo das últimas gestões. “É uma estrutura muito funcional, que facilita enormemente meu trabalho.”

Das atividades realizadas pela SBM, Piccione cita especialmente a produção e edição de livros e revistas, o gerenciamento do programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), o engajamento na formação de professores de Matemática e a colaboração com a Associação Nacional dos Professores de Matemática na Educação Básica (ANPmat) na realização dos Simpósios da Formação do Professor de Matemática.

Ele destaca também a organização de eventos, observando que, em parceria com o IMPA, coordena o Biênio da Matemática 2017-2018. “A expectativa de todos nós é a de atrair atenção e interesse para a nossa disciplina. Não há dúvida de que o ano de 2018 será um marco importante para a Matemática brasileira, pelas inúmeras atividades que serão realizadas no país.”

SBM e IMPA têm trabalhado numa parceria muito estreita, enfatiza o matemático, lembrando que, não por acaso, a Sociedade nasceu durante o VII Colóquio Brasileiro de Matemática, realizado pelo Instituto, em Poços de Caldas (MG).

“Trata-se de uma colaboração que funcionou muito bem até agora, e da qual ambas as instituições se beneficiam”, diz o pesquisador da USP, citando, por exemplo, contrato assinado em fevereiro do ano passado, que garantiu à SBM a exclusividade na comercialização e distribuição de todas as publicações científicas do IMPA.

Mais recentemente, relembra, IMPA e SBM foram responsáveis pela produção e lançamento do documento “Brazilian Mathematics 2018”, apresentado também na solicitação de promoção do Brasil ao Grupo 5 da União Matemática Internacional (IMU), constituído pelos países com maior excelência em pesquisa na área.

“A própria organização do ICM (Congresso Internacional de Matemáticos) será resultado da colaboração estreita entre a SBM e o IMPA. Sem dúvida, durante minha gestão procurarei consolidar esta parceria, em busca de benefícios para toda a comunidade matemática do país”, diz, referindo-se ao principal evento mundial da área, a ser realizado pela primeira vez no Hemisfério Sul, em agosto no Rio.

Sobre as dificuldades de administrar em um período de recursos escassos, especialmente na Ciência, Piccione avalia que, graças às gestões anteriores da SBM, as atividades na Sociedade não sofreram impacto significativo.

“O trabalho fenomenal feito pelos meus antecessores na diretoria da Sociedade a tornaram uma organização autônoma e saudável financeiramente”, relata, observando que a publicação e distribuição de coleções de livros de alta qualidade e preços acessíveis, com grande procura no mercado da educação e da pesquisa, garantem uma renda sólida e contínua. Além disso, diz que as anuidades dos associados sempre contribuíram para manter a SBM em situação financeira estável e segura: “Os recursos são gerenciados de forma competente e cristalina, e o orçamento geral sempre foi aprovado de acordo com os mais exigentes padrões de controle.”

Quanto à política científica no Brasil, o presidente da SBM tem muito claro seus dois objetivos principais: o debate sobre a questão de gênero na Matemática e o fortalecimento da área nos programas de financiamento das agências públicas. “Iniciativas específicas sobre estas duas questões estão sendo discutidas na diretoria da SBM, e espero poder relatar algo mais concreto em breve”, adianta.

Mãe; astrônoma; pai engenheiro

A origem de seu interesse pela Matemática, Piccione desconhece. Sabe, no entanto, que a decisão de seguir um curso superior na área não veio de um raciocínio, “mas diretamente do coração”. É provável que as relações afetivas também ajudem a explicar o gosto pela disciplina, considerando que a mãe, astrônoma, e o pai, engenheiro, tinham um vínculo estreito com a Matemática. Tanto que, em casa, era mais fácil uma ajudinha em Trigonometria ou Geometria Analítica do que em História ou Filosofia, recorda.

“Não me lembro de um período da minha vida escolar em que para mim não fosse extremamente mais agradável aprender algo novo de Matemática, ou resolver um problema de Geometria, do que estudar qualquer outra coisa, com a possível exceção de uma boa tradução do latim ou do grego clássico nos últimos anos do Liceo, que são matérias tão entusiasmantes quanto a Matemática”, relata Piccione, que tem duas irmãs.

Nascido em Roma, em 24 de abril de 1964, numa família genuinamente italiana – o avô paterno era da Sicília; e o materno, da Itália central –, de uma classe social “sem particular destaque”, embora tenha usufruído dos importantes avanços da sociedade italiana no pós-guerra, Piccione conta ter conseguido uma educação em escolas públicas de ótimo nível. Assim como os pais, três décadas antes dele, formou-se na mesma Università La Sapienza, em Roma, onde obteve Laurea in Matematica.

Na USP, onde leciona desde 1996 e concluiu a livre docência, após um PhD em Matemática na Pennsylvania State University (EUA), Piccione desenvolve pesquisas que tratam de temas com possíveis aplicações à Física. Os principais resultados alcançados na área de Geometria Lorentziana possuem uma interpretação dentro da Relatividade Geral, diz ele, dando detalhes sobre trabalhos que realizou:

“A Teoria de Morse para geodésica de tipo luz, que estudei em vários dos meus artigos, é utilizada para modelar o chamado fenômeno das lentes gravitacionais num espaço-tempo relativístico. Outros resultados na área da Geometria sub-Riemanniana possuem aplicações e interpretações na mecânica de sistemas com vínculos não holonômicos. Mais resultados sobre soluções de sistemas Hamiltonianos mostram a existência de muitas possíveis trajetórias periódicas, ou seja, que se repetem infinitamente ao longo tempo, para uma grande classe de sistemas físicos sujeitos a forças conservativas.”

Ao comparar com a educação recebida na Itália, Piccione avalia que o ambiente universitário brasileiro é mais informal e, por isso, mais adequado à própria personalidade. “Gosto da forma amigável como os alunos brasileiros tratam os professores e da forma cordial com que os professores se relacionam com os alunos. Também tive a sorte de encontrar e orientar vários excelentes alunos de pós-graduação. Isto me motivou muito a me dedicar às atividades de pós-graduação”, afirma, mostrando que a adaptação ao modo de vida brasileiro não foi um problema.

Além das portas profissionais, o país abriu o coração para Piccione. Pouco tempo após chegar ao Brasil, casou-se e se tornou pais de dois filhos. “Além de muitas satisfações profissionais, o país me deu a oportunidade de criar uma família, que é outro motivo de orgulho para mim.”

Reprodução: IMPA
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