O que podemos aprender com o Japão medieval?

O que podemos aprender com o Japão medieval?

Minha primeira ida ao Japão, em 1990, para o Congresso Internacional de Matemáticos de Quioto, foi uma das viagens mais inesquecíveis da minha vida. Voltei fascinado pelo Congresso e pela incrível cultura japonesa. E trouxe na bagagem dúzias de fotos (nesses tempos pré-digitais, “dúzias” era um monte!) e um livro. Mas não qualquer livro.

“Genji Monogatari” (“O conto de Genji”) foi o primeiro romance literário do mundo. “Genji é o ponto mais alto da literatura japonesa”, disse o escritor Yasunari Kawabata em seu discurso de aceitação do prêmio Nobel de 1968, acrescentando: “Até hoje não existe obra de ficção comparável”.

O personagem central, Genji, é um príncipe sensível e frívolo que desfruta a vida da corte imperial japonesa do início do século 11: o romance foi escrito entre 1000 e 1012. Ao longo de mais de mil páginas, o relato de suas alegrias e decepções, no amor e na política, nos proporciona uma visão íntima e fascinante do Japão medieval.

Um dos aspectos que colocam esse livro em uma classe à parte é que foi escrito por uma mulher, Murasaki Shikibu, ela própria da nobreza imperial. Como em quase todas as sociedades humanas, as mulheres da corte estavam sujeitas a muitas limitações. Recebiam uma educação, mas ela não incluía o chinês, a língua culta do império. E eram proibidas de ler e escrever literatura “séria”.

Assim mesmo, um grupo de mulheres talentosas criou a melhor literatura da época, em todo o mundo. A notável sensibilidade de Murasaki para entender a alma humana raramente foi igualada por um autor masculino: há quem a compare ao francês Marcel Proust, que viveu 9 séculos depois.

A própria existência do Genji é prova de que algumas mulheres conseguem ultrapassar as barreiras artificiais ao seu talento. Mas quantas ficaram no caminho? Quantas mulheres talentosas na Grécia, na China, no Islã, na Índia ou na Europa deixaram de dar suas contribuições únicas à civilização? E quantas nos nossos dias deixam de se realizarem na ciência porque a cultura ambiente lhes diz que esse papel não lhes pertence?

Leia o texto na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo
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