Os marcianos já caminharam na Terra

Na imensidão do Universo há incontáveis galáxias, cada uma com bilhões de estrelas, rodeadas por ainda mais planetas. Entre tantos, não há como duvidar de que muitos têm vida inteligente. Certamente, muitos planetas já alcançaram a era espacial: seus habitantes circulam entre os astros, explorando novos mundos. Não é possível que não encontrem um lugar lindo como a Terra.

Enrico Fermi (1901-1954), o grande físico ítalo-americano que liderou o projeto nuclear dos EUA, não estava convencido. “Esses seres superiores já deveriam ter chegado. Onde estão eles?” A resposta, descarada, veio do físico e biólogo húngaro Leo Szilard (1898″”1964): “Eles já estão entre nós, só que se denominam húngaros”. Assim nasceu a lenda dos marcianos.

Nos anos em torno da 2ª Guerra Mundial, emigrou para os EUA um grupo impressionante de cientistas húngaros, especialmente matemáticos e físicos de origem judaica.

Além de Szilard, estavam Theodore von Kárman (1881-1963), Eugene Wigner (1902-1995), John von Neumann (1903-1957), Edward Teller (1908-2003), Paul Erdös (1913-1996), Peter Lax (nascido em 1926) e muitos outros.

Com seu talento sobre-humano —e o sotaque do Drácula nos velhos filmes protagonizados pelo húngaro Bela Lugosi —, eram um grupo à parte. Ficava fácil acreditar que não eram deste mundo.

Dizia-se que uma nave marciana pousara em Budapeste por volta de 1900. Após a conclusão de que a Terra não lhes interessava, os alienígenas foram embora mas não sem antes gerarem os famosos cientistas. Estes contribuíam para enfeitar e propagar a lenda, adicionando “evidências”. Edward Teller, que se orgulhava das iniciais E.T., fingia preocupação: “A história está se espalhando, aposto que von Kármán anda falando demais!”

 

Leia o texto na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo

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Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas

O primeiro Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas acontecerá no IMPA nas vésperas do 32º Colóquio Brasileiro de Matemática, nos dias 27 a 28 de julho de 2019.

A sub-representação de mulheres na área de Ciências Exatas, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CETEM) é um fenômeno mundial preocupante para a ciência, dado que a diversidade está no cerne da pesquisa e da inovação. É importante portanto uma reflexão sobre a discrepância de gênero em CETEM, em particular em matemática, suas causas, desafios e possíveis iniciativas para diminuí-la.

O Encontro Brasileiro de Mulheres Matemáticas visa estimular a inclusão e permanência das mulheres na carreira científica em matemática. A programação prevê palestras científicas de alto nível, apresentações de jovens pesquisadoras, sessões de tutoria, apresentações de pôsteres e mesas redondas.

Para mais detalhes, incluindo a programação completa, consulte o link: https://impa.br/eventos-do-impa/eventos-2019/encontro-brasileiro-de-mulheres-matematicas/

Rigor de Flexner levou medicina americana ao topo

Escrevi há um mês sobre o livro “A utilidade do conhecimento inútil”, do norte-americano Abraham Flexner. O autor merece que falemos mais dele. Flexner nasceu em Louisville, Kentucky, em 1866. Na época, o ensino no sul dos Estados Unidos era muito ruim, mas ele se autoeducou na biblioteca local. Dessa forma, conseguiu acesso à Universidade Johns Hopkins, então recém-criada e que se tornaria a primeira universidade de alto nível científico no país, com cursos de doutoramento no sentido moderno.

Após a graduação, Flexner voltou ao Kentucky para ser professor. Ao final do primeiro ano, insatisfeito com o desempenho, reprovou a turma inteira. Protestos dos pais levaram a um inquérito: após ouvir os fatos, a direção da escola validou a decisão de Flexner.

Seu trabalho como docente acabou quando Flexner decidiu fazer mestrado. O tema foi a análise do sistema educacional do seu país. A conclusão, uma crítica devastadora, tornou Flexner persona non grata na comunidade dos educadores, mas também atraiu a atenção da Fundação Carnegie para o Avanço da Educação, que lhe encomendou um estudo sobre o ensino de medicina.

No início do século 20, a grande maioria das faculdades norte-americanas de medicina funcionava como certos cursos de moda, serviço social, estética e outros tópicos nos nossos dias: pegavam o dinheiro dos alunos, davam um par de aulas, e outorgavam um lindo diploma. Só em Chicago eram 14.

Flexner fez cursos rápidos de medicina na Johns Hopkins e no Rockefeller Institute e partiu para visitar todas as 155 faculdades de medicina dos Estados Unidos e Canadá. Muitas vezes teve que apelar para a astúcia. Numa faculdade em Des Moines, Iowa, todos os laboratórios – marcados Anatomia, Patologia, Fisiologia etc –estavam trancados e não foi possível encontrar o zelador.

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Inscrições abertas para a OBMEP 2019

Estão abertas as inscrições para a 15ª Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Realizada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), a maior competição científica do país é destinada a estudantes dos Ensinos Fundamental (6º ao 9º ano) e Médio.

Escolas municipais, estaduais, federais e privadas podem participar da olimpíada, que, no ano passado, reuniu 18,2 milhões de estudantes de 99,4% dos municípios brasileiros.

A inscrição deve ser realizada pelas escolas, por meio do preenchimento da Ficha de Inscrição disponível exclusivamente na página da OBMEP (www.obmep.org.br). O prazo se encerra em 15 de março.

As provas serão aplicadas nos dias 21 de maio (1ª fase) e 28 de setembro (2ª fase) e distribuídas de acordo com o grau de escolaridade do aluno: nível 1 (6º e 7º anos), nível 2 (8º e 9º anos) e nível 3 (qualquer ano do ano do Ensino Médio).

A OBMEP premia separadamente alunos de escolas públicas e privadas. Aos primeiros serão concedidas 6.500 medalhas (500 ouros, 1.500 pratas e 4.500 bronzes) e até 46.200 certificados de Menção Honrosa. Estudantes de instituições particulares receberão 975 medalhas (75 ouros, 225 pratas e 675 bronzes) e até 5.700 certificados de Menção Honrosa.

A divulgação dos vencedores está marcada para 3 de dezembro. Premiados com medalha de ouro, prata ou bronze garantem o ingresso em programas de iniciação científica.

Estímulo ao estudo da Matemática

Criada pelo IMPA em 2005 e realizada com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), a competição é promovida com recursos do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e do Ministério da Educação (MEC). Ela contribui para estimular o estudo da Matemática no Brasil, identificar jovens talentosos e promover a inclusão social pela difusão do conhecimento.

Estudos independentes já revelaram o impacto efetivo da olimpíada nos resultados de Matemática. Escolas que participaram ativamente da competição, aponta trabalho do ex-presidente do INEP Chico Soares, apresentam melhora no desempenho dos alunos de 26 pontos na Prova Brasil, o equivalente a 1,5 ano de escolaridade extra.

Apoio da UNESCO

Com o tema povos indígenas, a OBMEP 2019 tem o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Além do selo da organização, todo o material de divulgação da olimpíada tem a logo do Ano Internacional das Línguas Indígenas, iniciativa da UNESCO. Os cartazes da OBMEP 2019 são ilustrados pela matemática nos desenhos simétricos dos povos indígenas.

Reprodução: IMPA

Mulher semilendária, Hipátia foi a primeira matemática

É celebrada como a primeira matemática da História. Mulher de forte personalidade que, numa sociedade masculinizada, reuniu à sua volta um círculo brilhante de discípulos que a admiravam. Quem foi Hipátia de Alexandria?

As fontes históricas são escassas. Pior, sua vida e as trágicas circunstâncias de sua morte fizeram dela ícone de causas diversas, até contraditórias, nas quais ela, provavelmente, não se reconheceria. A lenda ocultou os fatos.

Para os filósofos pagãos da fase final do império romano, representou a resistência ao cristianismo. Na Idade Média, foi convertida em símbolo do cristianismo: aspectos de sua vida foram incorporados à lenda de Santa Catarina de Alexandria (que dá nome ao estado brasileiro). Para os pensadores do Iluminismo, simbolizou a oposição ao cristianismo. No século 20, foi reinventada como precursora do feminismo.

Hipátia foi assassinada em 415, mas o ano do seu nascimento não é conhecido: estima-se que tenha sido por volta de 355. Era filha de Téon de Alexandria, matemático e astrônomo de renome e diretor do Mouseion, prestigiosa escola de elite onde era ensinada a filosofia neoplatônica.

Boa parte do pouco que sabemos sobre Hipátia chegou pelos escritos de seus discípulos. Ela atraía admiração generalizada, tanto pelos ensinamentos quanto pela autoridade moral, inclusive a frugalidade de sua vida e vestimenta, e a virgindade que teria mantido durante toda a vida.

Não há evidências de que alguma vez tenha deixado Alexandria. Não era um ambiente democrático: em consonância com o pensamento de Platão, professores e alunos do Mouseion evitavam contato com as massas, que consideravam incapazes de compreender o conhecimento elevado.

Acredita-se que parte do “Almagesto” do astrônomo Ptolomeu que chegou até nós é de autoria de Hipátia. Ela também escreveu comentários à “Aritmética” de Diofanto e aos trabalhos de Apolônio de Perga sobre seções cônicas, que se perderam.

 

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Prêmio SBM 2019

Está aberto o prazo para indicações ao Prêmio SBM 2019,​ ​que irá distinguir o​ ​melhor artigo original de pesquisa em Matemática publicado​ ​recentemente por jovem pesquisador residente no Brasil.

Poderão ser indicados ao Prêmio artigos publicados nos anos de 2016 a 2019 por pesquisadores ou docentes que tenham obtido o seu doutorado no ano 2004, ou posterior.

As indicações deverão ser enviadas para o e-mail premiosbm@sbm.org.br até o dia 28 de fevereiro de 2019.

O regulamento está disponível em: https://www.sbm.org.br/wp-content/uploads/2018/09/Premio_SBM_2019.pdf

Para saber mais sobre o ​histórico do ​Prêmio SBM​,​ acesse: http://www.sbm.org.br/premio-sbm

Lewis Carroll e a matemática do País das Maravilhas

“Bom”, disse Alice, “no meu país, correndo assim, teríamos chegado a algum lugar”.

“É um país muito lento!”, respondeu a Rainha. “Aqui precisamos correr o máximo para ficar no mesmo lugar. Se quiser ir a algum lugar, tem que correr o dobro!”

O universo de “Alice do Outro Lado do Espelho” e “Alice no País das Maravilhas” está cheio de paradoxos que desconcertam e fascinam crianças e adultos há gerações. E a matemática está por toda a parte. “Vejamos: 4 vezes 5 é 12 e 4 vezes 6 é 13 e 4 vezes 7 é… nossa! Desse jeito nunca chegarei a 20!”, lamenta-se Alice.

Não surpreende, pois o autor, Lewis Carroll (1832-1898), era professor de matemática. Mas não se trata de mero jogo de contradições: há razões para crer que “Alice” também é uma sátira do modo como a matemática estava ficando mais abstrata.

Charles Dodgson (Lewis Carroll era pseudônimo literário) pertencia a uma família com tradições de serviço na igreja anglicana, e ele próprio tomou ordens religiosas. Tendo provado seu talento para a matemática nos estudos em Oxford, tornou-se professor da disciplina nessa universidade.

Teve grande interesse pela fotografia. Chegaram até nós fotos que tirou, inclusive das três irmãs Liddel, as jovens filhas do decano (diretor) de sua faculdade. “Alice no País das Maravilhas” começou com uma história que contou às meninas durante um passeio de barco. A do meio, Alice Liddel, o instou a colocar por escrito.

Conta-se que os livros de “Alice” chegaram ao conhecimento da rainha Vitória. Encantada, ela escreveu parabenizando e dizendo que adoraria ler as demais obras do autor. Travesso, Carroll enviou à soberana seu “Tratado elementar da teoria dos determinantes e aplicação à teoria das equações simultâneas lineares e algébricas”. Infelizmente, não sabemos se Vitória apreciou.

Profundamente conservador em tudo, Carroll repudiava as geometrias não euclidianas, os números imaginários e outros avanços da matemática. “Alice” está repleta dessa indignação.

“Diga o que quer dizer!” exige a Lebre. “Eu quero dizer o que digo, é o mesmo!”, retorque Alice. “Totalmente diferente!”, contesta a Lebre, “Por acaso, ‘vejo o que como’ é o mesmo que ‘como o que vejo’?!” Uma paródia da álgebra abstrata e suas operações não comutativas.

 

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Prêmio Gutierrez edição 2019

Estão abertas as inscrições para o Prêmio Gutierrez edição 2019.
O prêmio foi criado pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação, da Universidade de São Paulo(Icmc Usp) com parceria da SBM e tem por objetivo outorgar distinção à melhor tese defendida e aprovada em cursos reconhecidos pelo MEC na área de Matemática, considerando os quesitos originalidade e qualidade.
O prazo de inscrição termina dia 01 de abril de 2019.

Quem quer ser um matemático milionário?

Quando eu era aluno de doutorado, circulava um rumor de que, no início da carreira, o famoso jogador norte-americano de basquete Magic Johnson teria recebido o seguinte conselho de um professor bem-intencionado: “Esqueça o esporte e aprenda matemática, você ganhará muito mais dinheiro!”

Nunca consegui confirmar esse rumor, mas é fato que Magic Johnson sempre foi um grande fã da matemática. Aposentado das quadras e empresário de sucesso, continua muito ativo em iniciativas que visam estimular o gosto da disciplina entre os mais jovens.

Por muito que me custe, tenho que admitir que matemáticos com muito dinheiro são raros, certamente mais difíceis de encontrar do que milionários que gostam de matemática e a apoiam – os quais, também são muito apreciados, evidentemente.

Entre estes últimos, destaca-se o empresário norte-americano London T. Clay (1926 – 2017) que, 20 anos atrás, criou o Instituto Clay de Matemática, organização privada sem fins lucrativos “dedicada a aumentar e disseminar o conhecimento matemático”.

O Instituto Clay organiza conferências e escolas, dá prêmios científicos e concede bolsas de estudo muito disputadas, particularmente para jovens brilhantes de todo o mundo: o brasileiro Artur Avila, ganhador da medalha Fields em 2014, foi bolsista Clay no início de sua carreira.

Mas sua iniciativa mais mediática, lançada no ano 2000, são os prêmios milionários que o Instituto Clay oferece pela resolução de sete problemas famosos da matemática: é US$ 1 milhão para cada um desses sete “Problemas do Milênio”.

O problema mais antigo na lista é a Hipótese de Riemann. Trata-se de uma afirmação sobre os zeros de uma certa função, chamada função zeta, formulada em 1859 pelo alemão Bernhard Riemann (1826 – 1886) em seus estudos em teoria dos números.

 

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Pitágoras não é o autor do teorema matemático que carrega seu nome

Embora seja o matemático mais conhecido do público, pouco se sabe sobre a vida e a obra de Pitágoras. Pior, as escassas informações de que dispomos são contraditórias. Foi pioneiro genial que deu os primeiros passos na transformação da matemática em ciência rigorosa? Ou místico obcecado com temas esotéricos, como reencarnação e regras peculiares, como a proibição de comer feijões? Parte da confusão se deve aos seus partidários terem se dividido com sua morte, transmitindo visões antagônicas de suas ideias.

Ao que sabemos, Pitágoras nasceu na ilha grega de Samos, por volta de 560 a.C., e morreu no sul da Itália, cerca de 480 a.C.. Na juventude, viajou por Egito e Babilônia, absorvendo conhecimento matemático. Por volta de 530 a.C., fixou-se na colônia grega de Crotona, onde fundou uma sociedade filosófica e religiosa que exerceu influência política considerável na Magna Grécia, o conjunto das colônias gregas no sul da Itália.

Pitágoras dividia seus seguidores em “akousmatikoi” (ouvintes), que estavam proibidos de falar e só podiam memorizar as palavras do mestre; e “mathematikoi” (matemáticos, ou aprendizes), os mais avançados, que podiam perguntar e até expressar opiniões. Só transmitia seus princípios com clareza aos últimos. Os “akousmatikoi” recebiam só esboços vagos e misteriosos.

Depois que morreu, os dois grupos teriam evoluído para facções rivais, transmitindo versões distintas dos ensinamentos: mística e esotérica, pelos “akousmatikoi”, racional e científica, para os “mathematikoi”. Mas é possível que a distinção não fosse tão estrita.

O alicerce da filosofia pitagórica era a ideia de que tudo é número. Ela estava baseada na descoberta de que as harmonias musicais podem ser expressas mediante números. Harmonias mais bonitas são dadas por notas cujas frequências estão em relações simples, tais como (2:1) ou (3:2).

Outro fundamento de sua crença estava na astronomia, que Pitágoras aprendera com os babilônios. Acreditava que os movimentos periódicos dos planetas estariam relacionados de alguma forma com os intervalos musicais, sugerindo que o movimento dos corpos celestes produz uma espécie de harmonia nos céus, a “música das estrelas”.

Sua contribuição científica mais conhecida é o teorema de Pitágoras: num triângulo retângulo, a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa.

 

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Emmy Noether, ‘pai’ da álgebra moderna

Foi meu primeiro Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, na sigla em inglês) e foi incrível.

O ICM 1990, na bela cidade japonesa de Kyoto, estava cheio de novidades. Foi o primeiro na Ásia. Num centro de convenções espetacular, onde a estética japonesa veste o concreto. E tinha uma mulher dando uma palestra plenária, a de nível mais alto.

A norte-americana Karen Uhlenbeck começou contando que, ao receber o convite, comentara com um colega que seria a primeira mulher plenarista no ICM desde Emmy Noether, em 1932. O rapaz respondera que não sabia que “ele” (Noether!) tivesse sido plenarista: reconhecera o nome de matemático importante e presumira que fosse homem.

Amalie Emmy Noether nasceu em 1882, filha do matemático judeu alemão Max Noether. Estudou na universidade de Erlangen, onde o pai lecionava e onde havia apenas duas mulheres entre cerca de mil estudantes. Ao final do doutorado, lecionou por sete anos na universidade, sem salário.

Em 1915, foi convidada pelos grandes David Hilbert e Felix Klein a integrar o departamento de matemática da famosa universidade de Göttingen. Professores da faculdade de história e filosofia se opuseram à contratação. “Seria inaceitável que os soldados voltassem [da guerra] para a universidade e encontrassem uma mulher dando aulas.” Hilbert retorquiu: “Não vejo como o sexo da candidata possa ser um argumento contra sua admissão como docente. Estamos em uma universidade, não em uma casa de banhos.”

Assim mesmo, em seus primeiros anos em Göttingen, Emmy Noether não tinha salário nem posição oficial: suas turmas eram atribuídas a Hilbert, mas era ela que aparecia para dar as aulas.

Noether é autora de muitos trabalhos matemáticos importantes, especialmente na área de álgebra. O famoso “teorema de Noether” explica a conservação de grandezas físicas, como a energia ou o momento, por meio de simetrias das leis da natureza. É uma ideia profunda, que teve enorme influência na física do século 20, particularmente na teoria da relatividade e na mecânica quântica.

Quando ela proferiu sua palestra plenária no ICM 1932, em Zurique, já se tornara uma das maiores matemáticas do seu tempo. Foi o primeiro Congresso sem boicote aos perdedores da 1ª guerra mundial, e o último antes que a sombra do nazismo se abatesse sobre a Europa.

 

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1º Encontro do PROFMAT- UFCA

O 1º Encontro do PROFMAT- UFCA acontecerá no dia 27/11/2018 na Universidade Federal do Cariri, campus do Juazeiro do Norte, e contará com os palestrantes Prof. Dr. Hilário Alencar e Prof. Dr. Krerley Oliveira, ambos da Universidade Federal de Alagoas.
O evento ainda terá uma sessão técnica composta por ex-alunos do Profmat que já defenderam suas dissertações contando um pouco de suas experiências e como o Profmat refletiu em suas vidas.

A inscrição é gratuita e irá até dia 27/11.

Mais informações em https://www.even3.com.br/iencontroprofmatufca

Maior de todos os cientistas, Newton não foi um grande ser humano

Anos atrás foi moda publicar livros com listas das “100 pessoas mais importantes” ou “mais influentes” de todos os tempos. Ultimamente não tenho visto, mas basta uma busca rápida na internet para ver que a mania não passou. Em geral, os primeiros lugares são ocupados pelos fundadores das grandes religiões: Moisés, Cristo, Buda e Maomé. Em seguida vem um cientista: Isaac Newton.

Nascido em 1642 e falecido em 1726, pelo calendário juliano então vigente, de Newton foi dito que “fez avançar todas as áreas da matemática que existiam”. Sua maior obra, “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”, publicada em 1687, lançou as bases de uma nova concepção do mundo, científica e racional. Um mundo cujo dia a dia não precisa ser gerido pela divindade, pois está perfeitamente determinado por leis matemáticas.

Não que Newton partilhasse dessa visão. Religioso, acreditava que o universo necessita intervenção divina regular para permanecer estável. Teria ficado chocado se ouvisse um de seus maiores seguidores, o francês Pierre-Simon Laplace (1749-1827), responder “Não precisei dessa hipótese” quando Napoleão Bonaparte questionou por que seu “Tratado de Mecânica Celeste” não mencionava Deus.

Newton foi uma figura paradoxal em mais do que um aspecto: o maior cientista de todos os tempos esteve longe de ser um grande ser humano.

Descobriu o cálculo matemático, extraordinária ferramenta a serviço da ciência. Mas demorou três décadas para publicar, deixando que o alemão Gottfried Leibnitz (1646-1716) se antecipasse.

O motivo da demora é controverso. Newton teria buscado evitar polêmicas, segundo os defensores. Estava escondendo o jogo, para colher sozinho os frutos do novo método, afirmam os detratores.

Seja como for, a disputa sobre a prioridade da descoberta explodiu e envenenou as vidas dos dois. Quando a Real Sociedade Britânica decidiu estudar a questão, Newton, que a presidia, manobrou para a conclusão lhe ser favorável. Ele mesmo escreveu o relatório final, declarando que Leibnitz era uma fraude.

 

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Cientistas mulheres pedem inclusão de período de licença-maternidade no currículo Lattes

Cientistas argumentam que meses após o parto têm menor fluxo de publicações e acabam perdendo competitividade frente a pesquisadores homens.

Um grupo de pesquisadoras enviou ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) uma carta com diferentes reivindicações para trazer mais igualdade de acesso e concorrência das mulheres às bolsas e financiamentos científicos no Brasil. Um dos pedidos é a inclusão do período de licença-maternidade no currículo Lattes, uma forma de sinalizar um possível “buraco” na produção durante o período pós-parto e evitar qualquer comparação injusta com os homens cientistas em processos seletivos.

O documento foi assinado pela professora Pâmela Mello Carpes, da Unipampa, que chamou a atenção dos colegas ao colocar a seguinte frase no Lattes: “Mãe de um filho de 14 anos, é atuante na causa das mulheres na ciência”.

A pesquisadora faz parte de um grupo de mulheres cientistas que está tentando chamar a atenção para uma queda iminente na produção científica durante o período de licença-maternidade – e como isso pode influenciar negativamente na carreira de pesquisadoras.

Eloah Rabello Suarez fez pós-doutorado na Universidade Harvard. Pesquisa uma das áreas mais promissoras no tratamento de câncer no mundo: a terapia genética. Isso não foi o suficiente porque ela tem um “buraco” na publicação de artigos científicos. Essa queda na produção coincide com outra parte importante de sua vida: ela é mãe de primeira viagem e, para os órgãos de financiamento de projetos, o tempo em que não produziu para cuidar do bebê interfere na hora de concorrer com outros pesquisadores, mesmo que sejam homens.

Pamela, a pesquisadora que chamou a atenção por colocar sua licença no Lattes, acabou sendo modelo para outras cientistas. Elas viraram um grupo que passou a acrescentar o período de licença-maternidade no currículo Lattes – a primeira tentativa de sinalizar para órgãos de financiamento porque há uma queda nas publicações por seis meses.

Em palestra sobre o assunto em setembro deste ano, Pamela lembra outros dados do IBGE de 2017 sobre as horas de trabalho doméstico de homens e mulheres no Brasil. Independente da renda e da idade, as mulheres cuidam mais da casa que os companheiros, pais, irmãos. São tarefas como cozinhar, lavar, cuidar das roupas, limpar, fazer compras. Quando a renda não chega a R$ 1 mil, elas chegam a trabalhar mais de 10 horas por dia.

E com a chegada da maternidade, manter a rotina científica fica ainda mais difícil.

Pesquisa inédita

Uma pesquisa inédita, ainda com resultados preliminares, analisou o impacto da maternidade na produção de mães cientistas: 81% delas dizem que ter um filho causa um impacto negativo ou muito negativo na carreira acadêmica.

O estudo brasileiro foi liderado pela pesquisadora Fernanda Staniscuaski, que apresentou dados preliminares em um simpósio no início do ano e, mais recentemente, no evento anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe). Ela chamou o projeto de “Parent in Science”.

Outro dado apresentado por Fernanda é o de que 54% das mães cientistas são as únicas responsáveis por cuidar dos filhos. Em 34% dos casos, os dois pais cuidam. Foram 1.299 docentes mulheres entrevistadas, 141 docentes de pós-graduação, 21 pós-doutorandas e 88 pais (maridos/companheiros de cientistas mulheres).

 

A reportagem foi publicada no G1 (globo.com). A Sociedade Brasileira de Matemática apoiou a iniciativa assinando a carta enviada ao CNPq. 

Link da reportagem: https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2018/11/13/cientistas-mulheres-pedem-inclusao-de-periodo-de-licenca-maternidade-no-curriculo-lattes.ghtml

A matemática, que nada sabe de observação

O filósofo Auguste Comte (1798-1857), fundador do Positivismo, acreditava que a ciência é a “investigação da realidade”. E colocava a matemática no topo: “É pelo estudo da matemática, e somente por esse meio, que se pode formar uma ideia correta e aprofundada do que se entende por ciência”.

Esse ponto de vista, que faz do método matemático o modelo e objetivo de toda investigação científica, é recebido de modo distinto por cientistas. Matemáticos tendem a repeti-lo sempre que possível (como acabo de fazer); colegas de outras áreas têm menor entusiasmo.

Um dos críticos mais ferozes foi o biólogo Thomas H. Huxley (1825-1895), autodidata e debatedor temível. Tendo aderido às ideias de Charles Darwin (1809-1882) sobre a evolução, defendeu-as com tanto vigor e paixão que acabou conhecido como o “buldogue de Darwin”.

Os dois naturalistas também tinham em comum o fato de saberem quase nada de matemática. Enquanto Darwin lamentava a ignorância (“Lamento não ter avançado o suficiente para entender os grandes princípios da matemática, pois pessoas com esse conhecimento parecem possuir um sentido extra”), Huxley se irritava com menções à disciplina que não dominava.

Seu ataque a Comte foi demolidor. Em artigo na revista Fortnightly Reviews, Huxley apresentou uma visão caricatural: “O matemático começa com algumas afirmações tão óbvias que são chamadas autoevidentes, e o resto do trabalho consiste em deduções sutis a partir delas”. E ridicularizou Comte: “Quer dizer que o único estudo que pode dar ‘uma ideia correta e aprofundada do que se entende por ciência’ é justamente esse (a matemática) que não sabe nada sobre observação, experimentação, indução ou causalidade?”.

A refutação a Huxley ficou a cargo do matemático inglês James J. Sylvester (1814-1897), em palestra em 1869 perante a Sociedade Britânica para o Progresso da Ciência. Sylvester começou por afirmar a admiração por Huxley, o qual “se tivesse dedicado seus extraordinários poderes de raciocínio à matemática, teria se tornado tão grande como matemático quanto é como biólogo”. Mas pessoas inteligentes também erram ao falar do que não entendem, continuou. Sobre o artigo de Huxley, intitulado “Notas de um discurso após o jantar”, ponderou, com ironia, que talvez tivesse sido mais prudente fazer o discurso antes da refeição…

 

Leia na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo

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I Encontro Paranaense do PROFMAT

I ENCONTRO PARANAENSE DO PROFMAT é o primeiro de uma série e tem por intuito consolidar, integrar e divulgar os projetos mantidos em cada programa junto ao público alvo: discentes do PROFMAT e do curso de graduação em Matemática/licenciatura e áreas afins, professores de Matemática e alunos da Educação.
O evento é promovido pelas seguintes Instituições Associadas ao PROFMAT do Estado do Paraná :

Universidade Estadual de Londrina – UEL (sede)
Universidade Estadual de Maringá – UEM
Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE (campus Cascavel)
Universidade Federal do Paraná – UFPR
Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR (campi Cornélio Procópio, Curitiba, Toledo e Pato Branco)

O encontro busca criar um espaço de reflexão sobre a formação do profissional em ensino, levar ao estudante, professor de matemática da Educação Básica, uma gama de propostas e possibilidades didático/pedagógicas que possam impactar e colaborar com seu trabalho na sala de aula, trazendo desta forma, melhorias na qualidade do ensino.

Nesta edição o evento será sediado na Universidade Estadual de Londrina , porém, é um evento itinerante e contínuo, isto é, ocorrerá a cada ano, revezando a sede numa das instituições associadas do PROFMAT no Estado do Paraná.

Mais informações em http://twixar.me/Zvl3

Olimpíada de matemática das escolas públicas abre as portas aos pequenos

Nesta terça (30), pela primeira vez, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) passou a ser oferecida a crianças do 4º e 5º anos do ensino fundamental: é a Obmep nível A. É mais uma importante etapa no esforço para ampliar e aprofundar cada vez mais o papel da Olimpíada no universo escolar.

A Obmep é realizada pelo Impa desde a sua criação, em 2005, com alunos do 6º ano do ensino fundamental ao final do ensino médio. Maior competição escolar do mundo, congrega anualmente 18,2 milhões de alunos, de 55 mil escolas em quase todos os municípios brasileiros. É organizada em duas fases e em três níveis, dependendo do ano de escolaridade.

Anualmente, 6.500 estudantes são distinguidos com medalhas de ouro, prata e bronze, e mais 46.000 recebem menções honrosas. Os medalhistas também ganham o direito de aprofundar seus estudos de matemática com bolsa de iniciação científica júnior em uma universidade pública, sob a orientação de um professor universitário.

Ao longo destes anos, a Obmep se consolidou como uma política pública com resultados positivos amplamente comprovados, tanto na identificação de jovens talentosos quanto no incentivo à aprendizagem da matemática. Uma das avaliações mais recentes do impacto da Obmep na sala de aula, realizado pela pesquisadora Diana Moreira na Universidade Harvard, aponta que bons resultados na olimpíada se traduzem em melhora do desempenho escolar, não só do vencedor como de todos os seus colegas de turma.

Ainda mais recentemente, estudo de 2018 do Ministério do Desenvolvimento Social comprova que a Olimpíada desempenha importante papel social, abrindo portas e oportunidades para jovens oriundos dos estratos mais desfavorecidos.

Apesar do êxito já alcançado, a Obmep continua a mudar para ampliar ainda mais seu escopo e seu impacto. Em 2017, pela primeira vez, foi aberta também a alunos de todas as escolas: em 2018, participaram mais de 5.500 escolas particulares, ao mesmo tempo em que o número de públicas bateu recorde pelo segundo ano consecutivo.

 

 

Leia na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo

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Conjectura abc causa discussão no reino da matemática

Um dos problemas mais famosos e importantes da matemática se encontra numa situação estranha: a solução existe, mas ela é tão longa e abstrata que ninguém sabe dizer se está correta.

Não é incomum que problemas matemáticos tenham soluções difíceis. A prova da conjectura de Poincaré, de G. Perelman, em 2003, demorou alguns anos para ser entendida e aceita, e o mesmo aconteceu com a prova do teorema de Fermat, do britânico A. Wiles, em 1993. E a prova do teorema das quatro cores, que usa computador, até hoje não tem uma versão que possa ser entendida integralmente por um humano. Mas a situação atual da “conjectura abc” é ainda pior.

onsidere números inteiros positivos a, b e c que não tenham fatores comuns e tais que a+b=c. Por exemplo, 8+25=33 (9+12=21 está excluído porque os três números são divisíveis por 3). Multiplique todos os fatores primos dos números a, b e c. No exemplo, eles são 2, 5, 3 e 11, e o produto é 330. A conjectura abc afirma que esse produto é sempre bem maior que o número c, exceto possivelmente num número finito de casos.

A conjectura foi mencionada pela primeira vez em 1985 pelo francês J. Oeseterlé, num caso particular que logo foi generalizado pelo britânico D. Masser. Alguns anos depois, o norte-americano N. Elkies observou que a solução dessa conjectura avançaria muitíssimo a teoria das equações com números inteiros, iniciada pelo matemático helenístico Diofanto no século 3. O alemão G. Faltings, que ganhou a Medalha Fields em 1986 por trabalhos nesta área, explica: “Se abc for verdade, não saberemos apenas quantas soluções uma equação tem, nós poderemos listá-las.”

O problema é que ninguém tinha ideia de como atacar o problema. Pelo menos até 30 de agosto de 2012, quando o japonês S. Mochizuki postou na internet quatro trabalhos (mais de 500 páginas!) que conteriam uma solução.

 

 

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