Novos Membros da Academia Brasileira de Ciências

A Academia Brasileira de Ciências acaba de divulgar o resultado das eleições para membros titulares, correspondentes e afiliados. 

Gregório Pacelli Bessa foi eleito membro titular na área de Ciências Matemáticas. Pacelli é professor titular da Universidade Federal do Ceará e foi Diretor da Sociedade Brasileira de Matemática – SBM na gestão 2017-2019.

Também foi eleito como membro afiliado região Nordeste, Gregório Manuel da Silva Neto. Gregório é professor Adjunto da Universidade Federal de Alagoas e membro do comitê editorial da Revista do Professor de Matemática – PMO, publicação da SBM.

Os membros titulares e correspondentes tomarão posse em maio de 2020, durante a Reunião Magna da ABC. Os membros afiliados terão suas cerimônias de posse associadas à simpósios científicos em cada região, para que apresentem suas pesquisas.

Confira a lista completa aqui: http://www.abc.org.br/2019/12/03/novos-membros-eleitos-para-a-abc/  

O que são as criptomoedas?

Tão logo o desenvolvimento da agricultura e da tecnologia permitiu a produção de excedentes, as sociedades humanas começaram a permutar bens, trocando o que têm em excesso por aquilo de que carecem. 

Inicialmente usamos a troca direta, mas isso é muito ineficiente: na maioria das vezes em que duas partes se encontram, o que uma tem a oferecer não interessa à outra. Para resolver esse problema, inventamos uma de nossas ficções mais influentes e estranhas: o dinheiro.

Dinheiro pode assumir formas diversas pelo mundo: conchas, sementes, sal (de onde acha que vem a palavra “salário”?), plaquinhas de metal, pedaços de papel, até bits digitais. 

Ao longo da história acreditou-se que moedas valiam o metal com que eram feitas e, mais tarde, que papel-moeda tinha que estar lastreado em reservas de ouro ou prata, de modo que qualquer um pudesse trocar suas notas pelo valor em metal quando desejasse. Essa ilusão evaporou no início do século 20: dinheiro não precisa ter valor em si mesmo.

Mas é absolutamente necessário que seja confiável: o que confere valor ao dinheiro é a confiança dos usuários de que poderão convertê-lo em bens valiosos quando desejarem. É por isso que a falsificação e outros atentados à integridade da moeda são punidos com tanta severidade, e que o funcionamento do dinheiro sempre exigiu a existência de autoridades emissoras e reguladoras (bancos centrais). Isso está mudando, e o mundo financeiro nunca mais será o mesmo.

Em novembro de 2008, foi publicado na internet um artigo em que uma misteriosa pessoa ou entidade, autonomeada Satoshi Nakamoto, apresentava um novo tipo de moeda, com características revolucionárias: a bitcoin. A bitcoin é um exemplo de criptomoeda, pois não tem suporte físico, consiste meramente de informação mantida na nuvem. Muitas outras surgiram posteriormente e se popularizaram rapidamente.

Leia o texto na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo
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O 1º voo da computação quântica

Quem inventou a aviação? No Brasil, sabemos que foi Santos Dumont. No resto do mundo, o consenso vai para os irmãos Wright. Na verdade, o que esses e outros pioneiros fizeram no início do século 20 foi construir máquinas caras e praticamente inúteis, que só voavam alguns metros. Provaram, porém, que voar era possível. 

A aviação veio depois, e nisso os Wright tinham duas grandes vantagens: espírito empresarial e indústria nacional capaz de realizar seus planos.

Outro “voo de galinha”, que pode ter consequências ainda mais revolucionárias, foi divulgado na revista Nature: a Google anunciou ter usado um computador quântico para fazer em 3 minutos e 20 segundos um cálculo que o supercomputador mais rápido do mundo levaria 10 mil anos para fazer.

O problema que esse computador tratou —identificação de padrões em sequências de números aleatórios— não tem grande interesse prático. A IBM, competidora da Google, apressou-se em afirmar que computadores clássicos poderiam resolvê-lo em apenas 2,5 dias (mas não ofereceu fazê-lo…). 

O computador da Google custou milhões de dólares e é praticamente inútil. Seu mérito foi provar que é possível.

Computação quântica é uma das ideias mais fascinantes da ciência desde os anos 1980, quando foi proposta por Paul Benioff e outros cientistas. Computadores clássicos guardam e processam informação na forma de bits, unidades minúsculas capazes de assumir apenas dois estados: 0 ou 1. Computadores quânticos tiram proveito das propriedades bizarras da matéria descritas pela mecânica quântica para realizar cálculos de modo muito diferente.

Uma dessas propriedades é a “superposição”: as unidades básicas dos computadores quânticos, chamadas qubits, podem assumir os dois estados, 0 e 1, ao mesmo tempo! Isto lhes confere uma capacidade extraordinária para armazenar e processar informação. Outra propriedade, ainda mais estranha, é o “emaranhamento”: bits clássicos podem ser modificados independentemente uns dos outros, mas os qubits estão ligados de tal modo que ações sobre qualquer deles afetam todos os outros. Isso acelera os cálculos de maneira vertiginosa.

Essas ideias foram desenvolvidas ao longo do século 20 por gerações de cientistas cujo único objetivo era entender a natureza: é mais um exemplo de pesquisa “inútil” mudando profundamente o nosso mundo.

Continuaremos na próxima semana.

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O que podemos aprender com o Japão medieval?

Minha primeira ida ao Japão, em 1990, para o Congresso Internacional de Matemáticos de Quioto, foi uma das viagens mais inesquecíveis da minha vida. Voltei fascinado pelo Congresso e pela incrível cultura japonesa. E trouxe na bagagem dúzias de fotos (nesses tempos pré-digitais, “dúzias” era um monte!) e um livro. Mas não qualquer livro.

“Genji Monogatari” (“O conto de Genji”) foi o primeiro romance literário do mundo. “Genji é o ponto mais alto da literatura japonesa”, disse o escritor Yasunari Kawabata em seu discurso de aceitação do prêmio Nobel de 1968, acrescentando: “Até hoje não existe obra de ficção comparável”.

O personagem central, Genji, é um príncipe sensível e frívolo que desfruta a vida da corte imperial japonesa do início do século 11: o romance foi escrito entre 1000 e 1012. Ao longo de mais de mil páginas, o relato de suas alegrias e decepções, no amor e na política, nos proporciona uma visão íntima e fascinante do Japão medieval.

Um dos aspectos que colocam esse livro em uma classe à parte é que foi escrito por uma mulher, Murasaki Shikibu, ela própria da nobreza imperial. Como em quase todas as sociedades humanas, as mulheres da corte estavam sujeitas a muitas limitações. Recebiam uma educação, mas ela não incluía o chinês, a língua culta do império. E eram proibidas de ler e escrever literatura “séria”.

Assim mesmo, um grupo de mulheres talentosas criou a melhor literatura da época, em todo o mundo. A notável sensibilidade de Murasaki para entender a alma humana raramente foi igualada por um autor masculino: há quem a compare ao francês Marcel Proust, que viveu 9 séculos depois.

A própria existência do Genji é prova de que algumas mulheres conseguem ultrapassar as barreiras artificiais ao seu talento. Mas quantas ficaram no caminho? Quantas mulheres talentosas na Grécia, na China, no Islã, na Índia ou na Europa deixaram de dar suas contribuições únicas à civilização? E quantas nos nossos dias deixam de se realizarem na ciência porque a cultura ambiente lhes diz que esse papel não lhes pertence?

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TV Globo mostra Torneio Meninas na Matemática

A primeira edição do Torneio Meninas na Matemática (TM²), realizado pelo IMPA, foi tema de reportagem do Bom Dia Brasil, da TV Globo, nesta sexta-feira (18). A matéria destacou o objetivo do TM² de incentivar a participação feminina em competições científicas.

“Temos várias iniciativas que visam atacar, dentro da esfera de influência na qual a gente atua, o desequilíbrio de gênero na Matemática. As próprias meninas que não têm exemplos de sucesso de mulheres que as antecederam, acabam acreditando que o sucesso não aconteceu porque não é lugar para elas”, explicou Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA, ao repórter André Trigueiro.

A equipe de reportagem também entrevistou a jovem Ana Karoline Borges, uma das organizadoras do TM². “A minha expectativa é que as meninas tomem gosto pela Matemática, que seja visto que a Matemática também é lugar para as meninas e que elas podem chegar aonde elas quiserem”, relatou a estudante de 22 anos do Instituto Militar de Engenharia (IME). 

A participante Julia Fernandes, de 14 anos, enfatizou o quanto a Matemática pode ser plural. “Meninos, meninas, todo mundo pode viver essa paixão que é a Matemática ou qualquer outra matéria. Porque sua paixão, aquilo que você ama, está ali para você.”

 

Cerca de 200 estudantes foram convidadas para participar da primeira edição do torneio e fizeram a prova nesta quinta-feira. Realizada pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) com apoio da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), a competição é dirigida às alunas dos ensinos Fundamental (a partir do 8º ano) e Médio das escolas públicas e privadas de todo o país.

A organização do TM² vai distribuir 4 medalhas de ouro, 8 de prata e 12 de bronze, totalizando 24, e até 20 menções honrosas para as alunas com os melhores desempenhos. A lista de premiadas será divulgada no site do torneio, em 11 de dezembro.

 TM² também servirá como primeiro teste de seleção das quatro alunas que representarão o Brasil na European Girls’ Mathematical Olympiad, competição anual exclusiva para meninas que inspirou o IMPA a criar o torneio nacional. Além disso, as medalhistas também serão convidadas a participar de cursos, treinamentos olímpicos e processos seletivos oferecidos na Semana Olímpica da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM).

A reportagem está disponível no Globoplay

Reprodução: IMPA

Índia criou numeração moderna, mas não a fórmula de Bhaskara

Acabo de passar duas semanas na Índia a trabalho, para participar em uma conferência que o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) co-organizou em Bangalore. Aproveitei para visitar o renomado Instituto Tata de Pesquisa Fundamental, em Bombaim, e para conhecer Goa, a velha capital do império português no Oriente.

A matemática indiana remonta a 1200 a.C. e suas realizações são notáveis. Os hindus descobriram o zero (independentemente dos babilônios e dos maias) e também vem deles o símbolo 0, que usamos para representar esse número: seu primeiro uso conhecido foi no manuscrito Bakhshali, escrito em fragmentos de casca de bétula por volta do século 3.

Esse importante avanço permitiu que criassem o sistema posicional decimal para representar números. O princípio central (“de lugar para lugar, cada um é dez vezes o anterior”) já aparece no Aryabhatiya, escrito em sânscrito ao final do século 5 pelo matemático e astrônomo Aryabhata (476 – 550). Transmitido ao Ocidente pelos árabes, e popularizado por Fibonacci, o sistema decimal hindu libertou os europeus da esquisita numeração romana, tornando-se padrão em todo o planeta.

Enquanto isso acontecia, a matemática na Índia continuava avançando. No século 7, já estavam trabalhando com números negativos, tendo identificado corretamente as respectivas regras de operação, como “negativo vezes negativo dá positivo”.

O que eles não fizeram foi descobrir a fórmula resolvente da equação de grau 2… O meu colega em Bombaim ficou surpreso quando contei que no Brasil ela é chamada “fórmula de Bhaskara”: houve dois matemáticos importantes com esse nome, nos séculos 7 e 12, mas ninguém na Índia associa qualquer deles com a fórmula (que já era conhecida dos babilônios por volta de 1.800 a.C.). Que se saiba, esse disparate é invenção brasileira.

Nos nossos dias, a Índia permanece um dos países mais desenvolvidos na pesquisa em matemática, ocupando um lugar no grupo 4 da União Matemática Internacional, o segundo mais importante. Isso se deve em parte ao prestígio do Instituto Tata, de Mumbai, historicamente o primeiro centro de excelência em matemática no mundo em desenvolvimento.

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Marcelo Viana explica o sucesso brasileiro na pesquisa matemática em Aula Magna no ICMC

Diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada falará sobre “A matemática brasileira: dos anos 1950 aos anos 2020” dia 16 de outubro, às 14h30; evento é gratuito e aberto a todos os interessados.

O Brasil se tornou referência em pesquisa matemática nos últimos anos. Um marco dessa história de sucesso é a ascensão do país ao grupo de elite da matemática mundial em 2018, anunciada pela União Matemática Internacional. Como ocorreu esse processo? Quais são os desafios para o futuro? Essas são algumas perguntas que o diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), Marcelo Viana, responderá durante a Aula Magna que vai ministrar no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

“É um prazer e uma honra poder dar essa Aula Magna no ICMC, uma de nossas mais destacadas instituições de ensino e pesquisa, que tanto tem contribuído para a matemática brasileira, e onde tenho tantos amigos”, destaca Viana, que foi o primeiro brasileiro e matemático a receber, em 2016, o Prêmio Louis D. do Institut de France, maior honraria científica da França.

Concebida como uma aula inaugural em cursos de graduação, a Aula Magna é realizada, tradicionalmente, por uma personalidade representativa da área de atuação da unidade de ensino e pesquisa em que é ministrada. Trata-se, portanto, de uma atividade relevante para os estudantes, que têm a oportunidade de conhecer mais a fundo o campo profissional em que atuarão.

“Em março deste ano, teve lugar na sede da UNESCO, em Paris, um evento intitulado Matemática e Desenvolvimento. O exemplo brasileiro ocupou uma posição de destaque na programação”, explica o diretor do IMPA. “Esse processo de desenvolvimento da pesquisa matemática decolou no Brasil nos anos 1950. Não é certamente coincidência que essa tenha sido também a década em que o país se lançou de forma definitiva no processo de industrialização, na sequência do resultado da Segunda Guerra Mundial. E o caminho da constituição de uma comunidade matemática de primeiro nível fechou um ciclo em 2018”, completa Viana.

Além da promoção do Brasil ao grupo de elite da União Matemática Internacional em 2018, a matemática brasileira ganhou destaque mundial com a realização, pela primeira vez em uma cidade da América Latina, do Congresso Internacional de Matemáticos no Rio de Janeiro. Maior encontro mundial da comunidade, o evento reuniu 2,5 mil matemáticos na cidade e integrou o Biênio da Matemática no Brasil (2017-2018), projeto concebido e liderado por Viana, que foi proclamado pelo Congresso Nacional por meio da Lei 13.358, e gerou um sólido movimento para desmistificar e popularizar a disciplina em todo território nacional.

Trajetória – Nascido no Rio de Janeiro, Viana mudou-se para Portugal ainda na infância, onde concluiu a graduação em matemática pela Universidade do Porto. Em 1990, voltou ao Brasil para fazer doutorado no IMPA, instituição que dirige desde 2016. Pesquisador das áreas de sistemas dinâmicos e teoria do caos, fez pós-doutoramento em Princeton e na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, nos Estados Unidos.

Viana também dirigiu a Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), foi vice-presidente da União Matemática Internacional e é membro das Academias de Ciências do Brasil, do Chile, de Portugal e do Mundo em Desenvolvimento (TWAS). Juntamente com Hilário Alencar, idealizou e liderou o Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional. Viana é, ainda, um dos principais idealizadores da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), promovida pelo IMPA desde 2005, com apoio da SBM.

A Aula Magna A matemática brasileira: dos anos 1950 aos anos 2020 é gratuita, aberta a todos os interessados e não demanda inscrições prévias. O evento acontecerá no auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano do ICMC na quarta-feira, 16 de outubro, a partir das 14h30.

Texto: Denise Casatti – Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
Com informação da Assessoria de Comunicação do IMPA

“A matemática brasileira: dos anos 1950 aos anos 2020” – Aula Magna com Marcelo Viana 
Quando: quarta-feira, 16 de outubro, às 14h30
Local: auditório Fernão Stella de Rodrigues Germano, sala 6-001, bloco 6 do ICMC
Endereço: avenida Trabalhador são-carlense, 400, área I do campus da USP, no centro de São Carlos
Mais informações: (16) 3373.9622 ou eventos@icmc.usp.br

Sem trigonometria, não existiria cartografia nem GPS

Ao final do século 18, a França adotou como medida oficial de comprimento o “metro”, definido como 1/40.000.000 do comprimento do meridiano de Paris. O problema é que é impossível medir um meridiano diretamente. A solução foi escolher duas cidades sobre o meridiano de Paris, Dunquerque e Barcelona, e medir a distância e a diferença de latitude entre elas: a partir daí, o comprimento do meridiano pode ser obtido usando uma regra de três.

Mas a tarefa continuava complicada, pois a distância entre essas cidades é de mais de 1 mil km… Até os anos 1980, distâncias entre pontos na superfície da Terra –possivelmente separados por montanhas, lagos etc– eram calculadas usando o método de triangulação, baseado na trigonometria. 

A ideia é a seguinte: começamos com dois pontos, A e B, tais que a distância entre eles é conhecida. Dado outro ponto, C, visível a partir de ambos, procedemos da seguinte forma: no ponto A, medimos o ângulo entre as direções AB e AC, e no ponto B medimos o ângulo entre as direções AB e BC. Isso é feito usando uma espécie de luneta, chamada teodolito. Com essas informações, usando funções trigonométricas, é possível calcular as distâncias entre A e C e entre B e C. Depois, podemos calcular as distâncias de A e C (ou B e C) a outro ponto D, e assim sucessivamente.

Este método permitiu que os astrônomos Jean-Baptiste Delambre (1749 – 1822) e Pierre Méchain (1744 – 1804) medissem com precisão a distância de Dunquerque a Barcelona, entre 1792 e 1799. A partir desses resultados, foi dada a primeira definição oficial do metro.

Mas o uso da trigonometria na cartografia começara antes. Na França, esteve muito ligada à família Cassini, uma das dinastias mais notáveis da história da ciência. Nos anos 1670, o astrônomo real Giovanni Domenico Cassini (1625 – 1712) dera início a um projeto de mapear toda a França. Juntamente com o filho, Jacques Cassini (1677 – 1756), concluiu em 1718 a primeira medição da distância de Dunquerque a Barcelona, que seria usada para construir protótipos provisórios do metro, enquanto se aguardava Delambre e Méchain terminarem seu trabalho.

O filho de Jacques, César-François Cassini (1714 – 1784), partiu do trabalho do pai e avô para obter a primeira triangulação completa do território francês. Seu filho, Jean-Dominique Cassini (1748 – 1845) – bisneto de Giovanni Domenico, que dera origem à dinastia no século anterior –, refinou e concluiu o trabalho do pai. O mapa Cassini, publicado pelos dois entre 1744 e 1793, estabeleceu o padrão da cartografia científica. 

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Para que serve seno e cosseno?

O estudo das relações entre os lados e os ângulos dos triângulos, que chamamos trigonometria, remonta à antiguidade e é uma das áreas mais centrais e úteis da matemática.

Infelizmente, na sala de aula costuma ser reduzido a uma lista de definições e fórmulas opacas, sem menção às suas importantes aplicações práticas.

Não surpreende que a maioria dos alunos não guarde boa lembrança. E os nomes estranhos das funções trigonométricas (seno, cosseno, tangente etc.) não ajudam.

Em espanhol, “seno” também significa “seio”, e uma vez um colega de Madrid me garantiu que essa seria a origem do nome, fazendo referência à forma arredondada do gráfico da função seno. Mas a história é um pouco mais complicada.

A noção de seno de um ângulo apareceu pela primeira vez por volta do ano 500, em trabalho do matemático e astrônomo hindu Aryabhata, o Velho (476 – 550). Ele usou o nome “jya” (corda de arco) que, por uma tradução mal feita, virou “jaib” (dobra ou baía) em árabe e, depois, “sinus” (dobra, baía ou… seio) em latim. Desta última, popularizada por Leonardo Fibonacci (1170 – 1250), o maior matemático da Europa medieval, resultou o nome atual.

Uma das aplicações mais impactantes da trigonometria foi na criação do Sistema Métrico Decimal, que hoje é utilizado na maioria dos países. Até o século 18, eram usadas centenas de unidades de peso e medida, que variavam de região para região e ao longo do tempo. Os franceses, por exemplo, mediam comprimento em “pés do rei”, com óbvios inconvenientes quando mudava o monarca. Com a industrialização e o crescimento do comércio, ficou urgente padronizar as unidades.

Após tentativas fracassadas para se criar um padrão internacional por consenso, a França revolucionária saiu na frente. Em 1790, a Academia Francesa de Ciências nomeou cinco notáveis cientistas — Borda, Condorcet, Lagrange, Laplace e Monge — para se debruçar sobre o problema e apresentar propostas concretas. Em seu relatório eles propuseram, entre outras coisas, que a unidade de comprimento passasse a ser o “metro”, definido como 1/40.000.000 do comprimento de um meridiano terrestre.

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Tales de Mileto foi o primeiro matemático

Anos atrás, um amigo me contou sobre uma conferência de física cuja cerimônia de abertura fora prestigiada por um representante do poder público. Impressionado, talvez, pela presença dos cientistas, o dignitário confessou de cara que a única coisa de que se lembrava das aulas de física era “aquele negócio de seno e cosseno”.

A teoria do seno e cosseno pertence à matemática, claro. Mais precisamente à trigonometria, que é o estudo das relações entre as medidas dos ângulos e dos lados de triângulos. Esse estudo remonta aos primórdios da história, na Mesopotâmia e no Egito, mas alcançou novo patamar a partir do filósofo e matemático grego Tales de Mileto, o primeiro indivíduo na história a quem se atribuem descobertas matemáticas.

Há dois teoremas com o nome de Tales na geometria, ambos sobre triângulos. Historicamente, seu aspecto mais inovador é serem afirmações gerais, que se aplicam a quaisquer triângulos e não apenas a casos particulares. Eles marcam a evolução da matemática do particular para o geral, do concreto para o abstrato, que se iniciara antes mas alcançou a maturidade na Grécia.

Acredita-se que Tales tenha nascido na cidade de Mileto, em meados da década 620 a.C., e morrido aos 78 anos, durante a 58ª Olimpíada, que ocorreu entre 548 e 545 a.C.. Segundo o historiador Heródoto, ele previu o eclipse de 28 de maio de 585 a.C.. Outros afirmaram que Tales teria usado seus teoremas para medir a altura das pirâmides do Egito, mas o fato de que os relatos variam bastante (alguns atribuem a façanha a Pitágoras!) torna a credibilidade duvidosa.

O primeiro uso conhecido da palavra trigonometria está no livro “Trigonometria: tratado breve e claro da resolução de triângulos” (em tradução livre do latim), publicado em 1595 pelo astrônomo e teólogo alemão Bartholomaeus Pitiscus (1561 – 1613). Pitiscus também teria sido o primeiro a usar o ponto decimal (em português usamos a vírgula) para separar a parte inteira da parte decimal de um número. Seu nome foi dado a uma cratera na Lua.

Mas o uso das ideias da trigonometria é muito anterior: o grego Hipparchus de Rhodes (190 a.C. – 120 a.C.), considerado o fundador da área, publicou em 180 a. C. um livro sobre o tema contendo tabelas da primeira função trigonométrica, chamada “corda” e relacionada com a função seno.

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A diferença que faz um professor

Visitei semana passada a Escola Municipal Alberto José Sampaio (EMAJS), na Pavuna, no Rio de Janeiro, para um momento muito especial: a premiação da Olimpíada de Matemática da escola. Localizada na zona norte carioca e na divisa com a Baixada Fluminense, a Pavuna ocupa a 99ª posição entre os 126 bairros da cidade no Índice de Desenvolvimento Humano. As estatísticas de segurança refletem a realidade desafiadora que vivem seus moradores. A cada vez que chove um pouco mais, a escola fica alagada: na primeira vez em que a visitei, dois anos atrás, o recreio ainda estava coberto de lama.

“Estamos em um bairro com IDH muito baixo, com alto nível de pobreza. Temos alunos com muitas dificuldades em todos os sentidos, de aprendizagem, sociais. Isso interfere diretamente no desempenho do estudante e da escola” explica a diretora Cinthya Tebaldi, ao mesmo tempo em que comemora o progresso alcançado, particularmente nas olimpíadas de matemática.

Apesar das dificuldades, é uma escola bem organizada e que exala dinamismo e otimismo. O segredo é o de sempre: um grupo de professores apaixonados por seu trabalho, entre os quais se destaca Deivison Cunha.

Conheci Deivison quando ele era aluno do Mestrado Profissional (PROFMAT) no Impa, de 2012 a 2014. Aos 38 anos, é professor em duas escolas municipais e um colégio particular. À noite, leciona em uma universidade, em duas cidades diferentes. No meio da rotina exaustiva, ainda encontra fôlego para coordenar na região o programa OBMEP na Escola, cuja meta é melhorar a qualidade do ensino da disciplina no país, bem como a participação do colégio no programa Meninas Olímpicas do Impa, que visa estimular a presença de alunas em atividades ligadas à ciência. E ainda é pai atento de dois filhos em idade escolar.

Inconformado, Deivison vem buscando melhorar a participação da EMAJS na OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas). “Criamos uma olimpíada na escola para incentivar nossos estudantes e mostrar que eles podem, sim, conquistar premiações na OBMEP”, explica. Organizar a competição é um desafio: o trabalho é voluntário, e as premiações são adquiridas com recursos doados pelos próprios professores.

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CTC/PUC-Rio abre seleção para bolsa integral nos cursos de graduação em Matemática, Física e Química a vestibulandos de todo o Brasil

Inscrições abertas para o “Provas Desafios 2019” até 27 de setembro. Para participar e concorrer a uma das seis bolsas que serão oferecidas, é preciso também prestar o vestibular PUC-Rio 2020

Uma bolsa integral para cursar graduação em Matemática, Física ou Química no Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio) é o sonho de muitos candidatos. Este ano, o edital para o “Provas Desafios 2019” já foi lançado e a seleção vai premiar os dois melhores vestibulandos em cada área aprovados no exame paralelo ao Vestibular 2020 da Universidade. As inscrições são gratuitas,  seguem até 27 de setembro pelo site http://www.puc-rio.br/desafios/ e, para concorrer, é preciso prestar também o Vestibular PUC-Rio, cujas inscrições se encerram dia 09 de setembro.

As provas serão realizadas na Universidade, no período da manhã, nas respectivas datas de acordo com a graduação pretendida: Química, 28 de setembro; Matemática, em 29 setembro, e Física, 05 de outubro. Os exames seguem o mesmo padrão adotado nas olimpíadas nacionais, com exercícios desafiadores e dinâmicos. Eles buscam descobrir e aperfeiçoar jovens talentos vindos do Ensino Médio em cada uma das disciplinas, com elevado potencial: competitivos, estudiosos e dispostos a enfrentar — e se destacar — em uma das três exigentes carreiras. Cada estudante pode concorrer em mais de uma graduação (Matemática, Física e/ou Química).

“Os bacharelados de Física, Matemática e Química do CTC/PUC-Rio têm se destacado nacionalmente através do Guia do Estudante, conquistando, anualmente, as cinco estrelas como nota máxima”, destaca o decano do CTC/PUC-Rio, o professor Luiz da Silva Mello, lembrando que mais de 60 alunos de todo o País já se beneficiaram desde 2007, quando a iniciativa foi lançada.

Além das bolsas integrais, os vencedores das Provas Desafios 2019 poderão receber benefícios adicionais — dependendo do desempenho acadêmico — como bolsas decorrentes de convênios com a iniciativa privada e projetos de Iniciação Científica. Cada curso dispõe ainda de uma bolsa integral adicional para medalhistas nas Olimpíadas Brasileiras de Física, Matemática e Química.

SERVIÇO:

PROVA DESAFIOS 2019

Inscrições: Até 27 de setembro

Site: http://www.puc-rio.br/desafios/

Datas das provas: 28 e 29 de setembro e 5 de outubro

Local: PUC-Rio: Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea, Rio de Janeiro, RJ

Bolsas do CNPq e Mais Médicos se encontram em Cocal dos Alves

D. Isaura, minha mãe, é professora aposentada da educação primária em Portugal. Quando iniciou a carreira, a colocação de professores em escolas públicas era baseada em um concurso anual. Cada candidato disputava com a nota de formatura, mais um bônus por cada ano de serviço. Em desvantagem relativa, os mais jovens ficavam com as escolas menos disputadas, em lugares pequenos e remotos. O povoado na província de Trás-os-Montes onde comecei a escola, informalmente aos 4 anos, está cercado por montanhas que no inverno ficavam nevadas e infestadas de lobos famintos.

O sistema era bem aceito porque cada professor tinha sua nota melhorando com o tempo, até conquistar uma posição permanente. E assim era atendida a obrigação do Estado de oferecer um serviço fundamental – educação – em todas as regiões do país. Essa solução, satisfatória para Portugal, seria provavelmente inviável no Brasil, com sua dimensão continental e estrutura federativa. Mas o problema aqui é o mesmo. E soluções satisfatórias ainda precisam ser encontradas, para a educação, a saúde e outros serviços básicos.

O Programa Mais Médicos ilustra bem o problema. A questão costuma ser formulada em termos de uma dicotomia: “importar” profissionais estrangeiros para que ocupem vagas deixadas pelos nacionais, ou incentivar (com que recursos?) brasileiros para que se desloquem para regiões remotas? São perguntas difíceis, que não cabe tentar responder aqui. Até porque acredito que a verdadeira solução é outra.

No domingo (1), o Fantástico, da TV Globo, foi a Cocal dos Alves (PI) analisar as consequências dos cortes de bolsas do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), especialmente para os medalhistas da OBMEP (Olimpíada Brasileira de Matemática). Cada medalhista ganha uma bolsa de R$ 100,00/mês, por um ano, enquanto está na educação básica, e outra de R$ 400,00/mês durante a graduação, para aprofundar seus estudos de matemática.

Município de menos de 6 mil habitantes, com um dos 30 piores IDH do Brasil, Cocal é um improvável celeiro de premiados da OBMEP, a quem a Olimpíada passou a oferecer oportunidades de vida e sucesso até então inexistentes. Na visita, os jornalistas descobriram algo que nem nós do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) sabíamos: todos os três médicos que atuam em Cocal foram medalhistas da OBMEP e se desenvolveram e custearam seus estudos com essas bolsas modestas!

Leia o texto na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo
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Jacob Palis é homenageado com Prêmio Abdus Salam 2019

A cerimônia de entrega do Spirit of Abdus Salam Award 2019 aconteceu nesta quarta-feira (29), no Centro Internacional Abdus Salam de Física Teórica (ICTP, em inglês), em Trieste (Itália). O matemático brasileiro Jacob Palis, pesquisador emérito do IMPA, foi um dos vencedores da distinção, anunciada em janeiro. O físico Sandro Radicella, do Laboratório de Telecomunicações do ICTP, e a Biblioteca Marie Curie, na sede do ICTP, também foram premiados.

Reconhecido por suas importantes contribuições ao desenvolvimento da ciência, especialmente à Matemática, Palis não pôde comparecer à cerimônia porque está se recuperando de uma cirurgia recente. Do hospital, gravou um vídeo bem-humorado em agradecimento.

“É uma grande honra receber o prêmio Abdus Salam 2019. Infelizmente, devido a uma cirurgia inesperada, fui incapaz de comparecer à cerimônia. Pedi ao meu ex-aluno Stefano Luzzatto para ler o discurso e beber uma taça de Brunello di Montalcino [vinho tinto produzido na região da Toscana] no meu lugar”, brincou.

O Abdus Salam Award foi criado em 2014 pela família do físico paquistanês Abdus Salam, vencedor do Nobel de Física de 1979, como uma forma de manter vivos sua memória e seu espírito científico. Além do certificado, os vencedores recebem € 1 mil.

Palis foi escolhido pela extraordinária contribuição à causa da ciência em todo o mundo, como renomado matemático, mentor de jovens pesquisadores, líder em organizações internacionais importantes e incansável promotor do avanço científico, especialmente no mundo em desenvolvimento.

Em toda a carreira, Palis orientou mais de 40 alunos de doutorado, entre eles os renomados Welington de Melo, Ricardo Mañé, Carlos Gustavo Moreira de Araújo e o atual diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana. Tem mais de 250 descendentes científicos.

Luzzatto ressaltou a carreira e o lado humano de Palis, a quem conheceu em uma conferência de sistemas dinâmicos, em 1991. Além de recordar momentos marcantes da trajetória do pesquisador, Luzzato leu na cerimônia o discurso escrito por Palis. A mensagem de agradecimento foi destinada à família e aos colegas cientistas, com uma dedicatória final à área de sistemas dinâmicos, na qual atua.

“Se posso mencionar algo que aprendi com o efeito borboleta, é que as pequenas mudanças na minha carreira científica me trouxeram aqui para ser honrado em frente a vocês. Isso é algo que eu não poderia prever, mas estou muito honrado e lisonjeado. Muito obrigado a todos”, escreveu Palis.

Biografia

Mineiro de Uberaba, caçula de oito irmãos, Jacob Palis, 79 anos, é engenheiro formado pela antiga Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ), com mestrado e doutorado concluídos na Universidade da Califórnia (EUA) nos anos 1960.

No início dos anos 1990, ele foi membro do Conselho Científico do ICTP e seu presidente de 2003 a 2005. Palis também foi secretário-geral da Academia Mundial de Ciências (TWAS) de 2001 a 2006 e eleito presidente da entidade de 2007 a 2012.

O pesquisador emérito presidiu a Academia Brasileira de Ciências (ABC) no período 2007-2016 e a União Internacional de Matemática (IMU) de 1999 a 2002. Foi, ainda, diretor-geral do IMPA de 1993 a 2003. Em 2005, o matemático brasileiro foi condecorado Cavaleiro da Ordem pela Legião de Honra da França. Em 2018, recebeu nova condecoração: a Medalha de Oficial da Legião de Honra da França, pelo trabalho de excelência realizado em prol da ciência mundial e das relações científicas entre a França e o Brasil.

Reprodução: IMPA

O Universo é feito de simetrias

Nossa primeira experiência com simetria ocorre em frente ao espelho, na primeira infância. A fascinação de descobrir o mundo “do outro lado”, estranhamente parecido com o nosso, é inesquecível. Mas simetria é muito mais: sabemos hoje que ela é um aspecto fundamental do tecido do Universo.

“É apenas um pequeno exagero dizer que a física é o estudo da simetria”, afirmava Phillip Anderson, prêmio Nobel da física em 1977. A matemática ​Emmy Noether provou que “a cada simetria matemática de um sistema corresponde uma quantidade física preservada pela evolução desse sistema”. Este teorema tem papel fundamental na física, especialmente na mecânica quântica, onde explica propriedades das partículas subatômicas (carga, spin etc.) como resultado de certas simetrias matemáticas do Universo.

A membrana do vírus da gripe é formada por apenas quatro tipos de proteínas, que se encaixam em um padrão geométrico repetitivo: o código genético para construir tal estrutura é mais econômico do que seria necessário para um padrão menos simétrico. Organismos vivos tiram proveito de simetrias de muitas outras formas para economizar no uso de recursos. E minerais estruturam-se em formas cristalinas cheias de simetrias porque estas requerem menos energia.

Simetria também tem protagonismo na arte, claro. Leonardo da Vinci baseou sua “Última ceia” numa composição simétrica: a posição de Cristo isolado no centro acentua dramaticamente sua solidão às vésperas da paixão. Perfeita simetria das feições é parte do que faz de Nefertite, rainha do Egito antigo, “a mulher mais bela de todos os tempos”. Também é da simetria dos elementos arquitetônicos que emana o encanto estético do Taj Mahal. Até Johann Sebastian Bach fez uso de padrões simétricos em algumas de suas composições musicais.

Os dicionários contêm muitas definições de simetria, a maioria fazendo referência a “beleza”, “equilíbrio” e “harmonia”. Prefiro esta, que diz mais sobre o conceito: “invariância (do objeto ou sistema) sob a ação de uma ou mais transformações”. No caso do espelho, a transformação é a reflexão na superfície espelhada. Há versões mais complexas: por exemplo, caleidoscópios usam combinações de espelhos, usualmente três, para criar imagens fascinantes.

Leia o texto na íntegra: Coluna Marcelo Viana – Folha de S. Paulo
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Marcelo Viana recebeu Prêmio CBMM de Ciência

O diretor-geral do IMPA, Marcelo Viana, recebeu, nesta quarta-feira (21), no Museu do Amanhã, no Rio, o Prêmio CBMM de Ciência e Tecnologia. Especialista na área de Sistemas Dinâmicos, o matemático conquistou a honraria por suas contribuições à ciência, que elevaram o prestígio do Brasil no cenário mundial.

“Marcelo Viana tem uma participação importante na Olimpíada Brasileira de Matemática, mobilizando os jovens, mostrando a eles a beleza da Matemática. Isso é muito importante na ciência brasileira. Precisamos de jovens pesquisadores”, destacou Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e membro da comissão julgadora.

A cerimônia de entrega do prêmio, instituído pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), contará com palestra do vencedor do Nobel de Economia em 2018, Paul Romer. A premiaçãofoi criada para reconhecer o valor de pesquisadores que contribuem de forma significativa para o desenvolvimento do país e incentivar a produção da pesquisa científica e tecnológica de caráter inovador. É concedido em duas categorias: Ciência e Tecnologia. 

Em sua primeira edição, o prêmio recebeu 83 inscrições, vindas de todo o país, realizadas voluntariamente ou por indicação de personalidades renomadas nas áreas de Ciências Exatas e Engenharias. Cada agraciado receberá um troféu e R$ 500 mil. 

Além de Viana, a distinção será entregue ao biólogo João Batista Calixto. Professor-titular aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ele venceu na categoria Tecnologia, destinada aos  que geraram impacto econômico, social e ambiental relevante para o país com aplicações práticas do conhecimento científico.

Em vídeo de divulgação da CBMM, no qual fala sobre o papel central da Matemática em sua vida, Viana usou uma frase do matemático e filósofo francês Henri Poincaré (1854-1912) para ilustrar a relevância da ciência para a sociedade: 

“A ciência é um pequeno relâmpago no meio da escuridão, mas esse relâmpago é a única coisa que importa. Já cometemos muitas besteiras por ignorar a ciência”, disse o matemático, que acredita que “todos nós nascemos com a obrigação de tornar o mundo um pouquinho melhor.”

Pesquisador titular do IMPA, Viana recebeu outras importantes premiações nacionais e internacionais por suas contribuições à ciência e à educação, como o Grande Prêmio Científico Louis D., do Institut de France, e Anísio Texeira da Educação Básica, ambos em 2016, e Ramanujan do Centro Internacional de Física Teórica (2005), além de ter recebido a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (2000) e a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Educacional (2018).

Membro das Academias de Ciências do Brasil, do Chile, de Portugal e do Mundo em Desenvolvimento (TWAS), o matemático foi membro do Conselho Deliberativo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vice-presidente da União Matemática Internacional (IMU) e presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). Organizou o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2018) e é colunista da Folha de S.Paulo.

Reprodução: IMPA