Biênio da Matemática joga foco no ensino da disciplina que é grande desafio para o país

Em 2017 e 2018, Brasil sediará grandes eventos como a Olimpíada Internacional da Matemática (IMO 2017) e o Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2018)

Em março de 2010, Hilário Alencar, já presidente da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), reuniu-se com o então presidente da Capes, Jorge Guimarães, e com Marcelo Viana, atual diretor-geral do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA). Em certo momento, Guimarães disparou: “Não entendo como a matemática brasileira tem altíssimo nível, prêmios, excelentes matemáticos e grande inserção internacional, mas uma educação básica tão deficiente”. E arrematou: “Por que vocês não fazem nada pela educação básica?”.

A provocação fez com que os professores se mexessem, liderando esforços para melhorar não só o ensino, mas a imagem da disciplina entre alunos, professores, famílias e na sociedade. Em 2011, foi lançada a primeira turma do mestrado profissional em matemática (ProfMat), sob a batuta da SBM, que já coordenava com o IMPA, desde 2005, a Olimpíada Brasileira de Matemática de Escolas Públicas (Obmet). Em novembro de 2016, o Congresso Nacional proclamou por lei o “Biê­nio da Matemática 2017-2018 Gomes de Sousa”, com uma série de eventos programados para popularizar a matemática, formar e aperfeiçoar professores e incentivar o estudo da disciplina (Leia mais ao fim da reportagem).

Essas iniciativas têm buscado superar um dos calcanhares de aquiles da educação nacional: a má aprendizagem em matemática. Os resultados dos estudantes brasileiros caminham a passos lentos no Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes). Em 2012, último ano em que a prova teve ênfase em matemática, apenas 1% dos alunos brasileiros alcançou notas acima de 5 na escala que vai de “menor de 1” a “6”. Menos de 4% dos estudantes brasileiros têm nota igual ou superior a 4, resultado adequado para o exercício de profissões tecnológicas e científicas.

Gargalos do médio

Marcelo Viana enumera as razões desse quadro que considera “desolador” em artigo no prelo que analisa desafios e iniciativas para o ensino médio: formação deficiente dos professores; desprestígio da carreira do docente; inexistência de incentivos ao mérito; problemas na infraestrutura e na gestão escolar; currículos maldefinidos; práticas educativas arcaicas; livros didáticos de baixa qualidade; prevalência de interesses setoriais sobre o ensino de qualidade; e a disparidade de condições socioeconômicas entre as regiões do país. Leticia Rangel, doutora em formação docente pela UFRJ e professora do Colégio de Aplicação da universidade, resume o consenso na comunidade dos matemáticos: “Os problemas no ensino de matemática não estão descolados dos problemas na educação como um todo, mas a condição necessária para mudar essa realidade é a formação do professor”.

Inúmeras pesquisas, de fato, mostram que a peça-chave na qualidade da educação é a formação dos professores. Cydara Ripoll, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ressalta a importância da formação continuada e destaca o caso do Japão, onde os docentes passam por cursos durante toda a carreira. “Os quatro anos de uma licenciatura não dão conta de preencher lacunas que os estudantes trazem, ensinar conteúdos mais aprofundados que permitam conexões entre os diversos campos da área e ainda discutir como e o que ensinar na escola”, diz. Cydara, entretanto, ressalva que muitos professores ainda não reconhecem essa necessidade e que as secretarias de Educação muitas vezes não os liberam para simpósios de formação ou oferecem cursos demasiadamente focados em literatura da área de pedagogia, sem resultados diretos para a sala de aula.

Mas nem tudo é choro e ranger de dentes. Letícia Rangel destaca que um caminho já foi trilhado na última década. Aos poucos, na visão da pesquisadora, a sociedade tem tomado consciência da atua­ção do professor em termos de carreira e compreendido que é preciso melhorar a formação, as condições de trabalho e os incentivos. “Ser professor não é sacerdócio. Não basta ‘ter jeito’ para ensinar. Essa compreensão apareceu pela primeira vez no ‘modelo 3+1’, que tinha três anos de conteúdo e um ano de complementação pedagógica. Esse modelo está superado na maioria das universidades do país, o que é mais um reconhecimento da especificidade da formação do professor, porque mesmo quem sabe fazer matemática ainda não sabe ensinar matemática”, afirma. Um dos problemas, porém, é que o Brasil não tem ainda um modelo de formação de professores, como o Japão. A SBM tem grupos de trabalho sobre o assunto, mas as iniciativas ainda são incipientes.

Entre as políticas públicas relevantes, a professora destaca o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid) e a criação dos Institutos Federais. O Parfor, de 2009, é um programa emergencial cujo objetivo é fomentar a oferta de educação superior gratuita para os professores da rede pública. Quando foi criado, cerca de 1/3 desses professores não tinham sequer graduação e outro terço tinha graduação em áreas distintas daquelas em que lecionavam. Desde 2009, 34.549 se formaram pelo programa, e outros 42.035 professores o estão cursando. De acordo com dados do Censo Escolar de 2016, 74% das classes de matemática no Brasil têm professores com formação e complementação pedagógica na área, mas 24% delas ainda não têm professores com formação específica. Dessas, 6% são ministradas por professores sem curso superior.

O Pibid, criado em 2007, oferece bolsas de iniciação à docência aos alunos de licenciatura das instituições de ensino superior. Os bolsistas desenvolvem atividades em escolas públicas, a fim de melhorar sua qualificação inicial como professores da educação básica. Por fim, a criação e a expansão da rede de Institutos Federais de Educação, desde 2008, lograram interiorizar os cursos de licenciatura no Brasil.

Outro problema é o fosso entre o ensino superior e a educação básica, que se reflete na distância entre os matemáticos da elite de pesquisa e a grande massa de estudantes da educação básica. Para Marcelo Viana, esse fosso começou a ser superado com a criação da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) em 2005, que teve mais de 10 milhões de alunos de 93,5% dos municípios brasileiros inscritos. Em 2016, foram quase 18 milhões de estudantes de 99,5% dos municípios do país. Em 2014, foi lançado o “Portal da Matemática da Obmep”, que oferece material didático online e gratuito para alunos de todas as séries dos ensinos fundamental e médio.

O estudo “Impacto da Olimpía­da Brasileira de Escolas Públicas no Desempenho de Matemática na Prova Brasil, Enem e Pisa”, publicado em 2014 pelas pesquisadoras Camila Soares e Elisabette Leo, sob supervisão de José Francisco Soares, confirmou o que outros estudos já haviam mostrado: escolas públicas que têm um bom histórico de envolvimento com a Obmep apresentam resultados melhores na Prova Brasil. O resultado se repete em relação ao Enem e ao Pisa, embora seja estatisticamente menor. Para Marcelo Viana, o mecanismo pedagógico que explica a correlação passa pela indução da capacitação e da motivação de alunos e professores. As escolas participantes se empenham na divulgação e no treinamento dos estudantes e são comuns os casos em que os próprios alunos organizam grupos de estudo para a Obmep. “Sempre ouvimos a crítica de que as olimpíadas fomentam a competição no ambiente escolar, mas, pela nossa experiência, o que se tem fomentado é a cooperação entre os alunos”, diz Viana.

Filhotes da Obmep

Um dos rebentos da Obmep é o Programa de Iniciação Científica Jr. (PIC-Obmep), com bolsas para alunos do ensino básico, além de os colocar em contato com professores qualificados que orientam seus estudos em matemática. Os alunos podem frequentar grupos do estudo do PIC Presencial, se houver um polo em sua região, ou participar das aulas virtuais. Os veteranos do PIC podem ter acesso ao programa Mentores Obmep, que conta com uma plataforma própria para cursos ministrados por professores universitários. Além disso, os graduandos em matemática que sejam medalhistas na Obmep ou na OBM, ou graduan­dos em geral que tenham pelo menos quatro medalhas, podem pleitear bolsa de iniciação científica no Programa de Iniciação Científica e Mestrado (PICME), oferecido pela Capes e CNPq. Desde 2009, o programa soma 2.820 bolsas de iniciação científica, 172 bolsas de mestrado e, desde 2013, 44 bolsas de doutorado.

A partir de 2017, a Obmep será integrada à Olimpíada Brasileira de Matemática, que existe desde a década de 1970, e as escolas particulares poderão se inscrever na competição. O número de medalhas reservadas aos alunos de escolas públicas continua o mesmo e os estudantes de escolas particulares serão premiados também. Os 300 mais bem colocados em cada nível, os medalhistas de 2016 e os mais bem classificados nas olimpíadas regionais serão chamados a se inscrever na fase única da OBM, que terá premiação própria e selecionará os representantes brasileiros nas olimpíadas internacionais.

Formar o formador

O envolvimento do ensino superior com a educação básica aprofundou-se, na visão de Hilário Alencar e Marcelo Viana, a partir de 2011, com a criação do mestrado profissional em matemática, o ProfMat, no âmbito da Universidade Aberta do Brasil (UAB). O ProfMat é um mestrado stricto sensu coordenado pela SBM e oferecido em 96 polos universitários espalhados por todos os estados brasileiros. O programa foi o primeiro dos mestrados em rede no país e faz parte dos esforços do governo federal para aumentar o número de docentes pós-graduados na educação básica. “Com o ProfMat, tivemos o começo de um diálogo com a educação básica, mas não tem sido fácil. Os professores do básico não estão habituados a serem chamados a opinar, porque ninguém costuma pedir a opinião deles”, diz Viana. O programa já pós-graduou quase 3 mil docentes.

Além de aparar as arestas da formação deficiente de muitos professores e aprofundar os conteúdos ensinados na educação básica, os professores que passam pelo ProfMat acabam se envolvendo mais com a Obmep. Apesar de ainda não existir uma avaliação de impacto abrangente do ProfMat sobre o segmento dos alunos, Viana lembra que os estudos já publicados sobre a Obmep mostram que estudantes de professores que passaram pelo ProfMat têm o desempenho, em média, duas vezes melhor na olimpíada.

Apesar dos resultados ainda ruins na comparação com os paí­ses da OCDE, o Brasil assistiu à emergência de políticas públicas para enfrentar suas deficiências. Os próprios relatórios do Pisa, por exemplo, reconhecem que o Brasil aumentou a inclusão de jovens na escola e, ao mesmo tempo, aumentou a média de matemática nos testes, o que nos torna o país que mais melhorou em seus resultados médios. Mas o caminho ainda é longo. “Existe hoje um problema que é a formação dos formadores: quem está habilitado a formar o professor? Podemos romper esse círculo vicioso investindo na pós-graduação, pesquisando, discutindo e elucidando as questões próprias dessa formação, mas essas ações só podem frutificar no longo prazo”, completa Letícia Rangel.

Olimpíada e Congresso

A Lei 13.358 de novembro de 2016 proclamou os anos de 2017 e 2018 como o “Biênio da Matemática Gomes de Sousa”, em homenagem à Olimpíada Internacional de Matemática de 2017 e ao Congresso Internacional de Matemáticos de 2018, que ocorrerão no Brasil. É a primeira vez que o Congresso acontece no hemisfério Sul. A ideia é aproveitar os esforços e os custos de organizar os dois eventos para promover uma aproximação da matemática com a sociedade e deixar um legado positivo para o país.

O desafio das entidades que apoiam o evento, entre as quais o IMPA e a SBM, é tornar o Biênio uma realidade. Entre dezenas de eventos já programados, estão a Bienal da Matemática, de 23 e 30 de abril, o Festival da Matemática, de 27 e 30 de abril, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, de 23 a 29 de outubro, com programação especial voltada à matemática, além da Olimpíada Internacional de Matemática, de 12 a 23 de julho, e do Congresso Internacional de Matemáticos, de 1º a 9 de agosto de 2018. “O Biênio pretende mudar a visão negativa que a sociedade tem da matemática. Isso começa por fazer as pessoas não se sentirem mal com a matemática, o que não é um pequeno passo”, comenta Marcelo Viana.

Por meio do site do evento, qualquer escola ou instituição pode submeter a análise uma proposta para fazer parte do calendário oficial do Biênio.

Fonte: Revista Educação
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